11 de agosto de 2017

Descansemos

O tempo é de férias, pelo que não há crónicas. Aproveitem para reler as pérolas. Garanto-vos que não ficarão indiferentes à sabedoria daqueles que foram meus alunos.
Bom descanso! Encontramo-nos lá para Setembro ( cruzes, que tarde a chegar!)

2 de março de 2017

Nomes comuns colectivos - uma perspectiva


Sumário: Revisão da classe do nome. 
                Resolução e correcção de uma ficha de trabalho.

O momento é já o da correcção.
- Esta é fácil – comento eu – ora um conjunto de alunos é…
- Uma turma - dizem os jovens.
- Uma dor de cabeça! – diz o A., no seu registo habitual.

Eu cá não disse nada, mas tive vontade uma imensa de tomar um analgésico.

8 de fevereiro de 2017

O teatro, os meus ténis e o W.

Porque 5ª feira é dia de ida ao teatro, acontecimento que se reveste da sua pompa, afinal é uma espécie de Portugal Fashion, mas em ponto grande, já que a passerelle começa na escola e só termina largos quilómetros depois, no CCL, percurso este feito em passo de corrida. Este aspecto, há que assumi-lo, não estamos habituados a vê-lo nos desfiles, mas faz falta, já que traz todo um dinamismo corporal e vocal, que torna o espectáculo num momento imperdível, e, posso, para comprovar o que digo, deixar alguns registos de outros desfiles que já fiz:
“ ’Bora,’ bora, temos de lá estar às 15h!” ou “Fogo, pressora, ‘tou cansado(a)!” ou “Pressora, podíamos ir todos comer gelados!” ou “Quem é que manda aqui? Sou eu! Então não quero ver ninguém à minha frente!”
Tudo isto observado por um público que oscila entre o pasmado e o assustado. O susto, normalmente, vem do meu tom de voz, quando algum pupilo me tenta passar à frente, alegando mais energia, em virtude da juventude que, na sua perspectiva, me falta.
Prosseguindo, desta vez, ficamo-nos por cá, no entanto, para a próxima, iremos ao CCB, sim, à capital. Mas, para isso, há que treinar o passo e a perna, para que não nos chamem provincianos, quando, desde Lagos chegarmos à magna urbe, após  termos calcorreado os caminhos de Portugal.
Tanta conversa para dizer que calcei uns ténis, para habituar o pé e, no dia do grande evento, estar preparada. Confortáveis, de qualidade inegável, giríssimos, e assim, toda aperaltada do tornozelo para baixo, lá fui dar aulas, aos meus jovens que, expectantes, ansiavam pela minha ausência.
Entrei na sala, comecei a aula, prossegui com a aula e … nada.
- Moços, não sei se já repararam nos meus ténis novos… - disse eu, disfarçando a quase humilhação que sentia.
Gostei de ver 19 pares de olhos a inclinarem a sua curiosidade na direcção dos meus pés. Eis que me apercebo da falta de dois olhinhos, que procurei com os meus e que vou encontrar, perdidos, a olhar vagamente para o quadro interactivo. Eram os do P., que perguntava:
- Onde é que tem os ténis, pressora?
- Na cabeça, querido P. – disse logo eu.

Mas o P. é inteligente e viu logo que eu estava a brincar, ainda que me tenha olhado para a cabeça, sorrindo-me. Mas perdido.

31 de janeiro de 2017

TAMPAS, ÓCULOS & TROLLEYS



A pedido de muita gente, que é como quem diz, um petiz, cá vai uma cronicazinha. Pensarão, “tanta gente a pedir o regresso das crónicas, realmente!” e eu notarei a ironia nesse pensamento, caros leitores, por isso adianto já que não foi um petiz qualquer que ma pediu, foi um daqueles que vale por muitos. E não, não venham já aqui deixar comentários que estou a fazer insinuações relativas à dimensão corporal do jovem. Acaba-se já aqui a conversa, até porque ninguém me pediu coisa alguma!
Depois desta graciosa introdução, há que dizer que a minha vida na escola está um marasmo.
À parte um ou outro apontamento insignificante, nada aconteceu digno de um registo para a posteridade.
Bem, o W. safou-se naquela aula em que o F., o jovem mais calmo da turma, distraidamente, e para grande atrapalhação sua, projectou inadvertidamente a tampa da caneta. Ora o W. Não esteve com meias medidas e disse logo:
- Olha, até lhe saltou a tampa! – comentário acompanhado por um olhar entre o vivaço e o “ai jesus, que a pressora me põe lá fora”.
A pressora sou eu e, naturalmente séria, peguei logo num papel e, perante o ar assustado do pequeno, que se achou na iminência de uma falta de natureza disciplinar, com respectiva participação, devidamente registada no Inovar, escrevi “ crónica: saltar a tampa “ e, serenamente, prossegui com a aula, justificando, assim, o chorudo vencimento que aufiro a cada dia 23.
Como é do domínio público, perdi os óculos. Já havia feito algumas tentativas, mas desta vez foi mesmo a sério. Lá tive de recorrer a um modelo vintage que tinha aqui em casa. Ora, a mudança de visual gerou uma leve onda de sorrisos, que me levou ao comentário “não estão a resistir a tamanha beleza, não é?” e que me obrigou a medidas drásticas, que não gosto de tomar, por não fazerem parte da minha natureza, mas que tinham de ser tomadas, pois não gosto de distracções, ainda que o motivo seja o meu inegável bem parecer. Então, disse logo:
- Oh C., dá-me cá os teus óculos!
A C. deu-mos de imediato, pois conhece a minha imprevisibilidade. E além disso, já mos havia emprestado aquando de outras vezes que os meus desapareceram. Pronto, lá estão novamente os leitores a fazer juízos depreciativos e precipitados, “pobre jovem, coitadinha, praticamente ceguinha”. Desde já, aborrecem-me esses diminutivos, depois, a jovem tem miopia, tal como eu e tem a mesma graduação que a minha, mas a jovem não está a ser paga pelo seu desempenho, logo, para ceguinha, antes ela que eu, que tenho responsabilidades e um chorudo vencimento a justificar. Estamos entendidos?
A C. lá fechava ligeiramente os olhos, parecia estar a querer focar o meu rosto, o que é compreensível, pelas razões estéticas anteriormente abordadas, eu é que estava com um grande desconforto nas orelhas, pois as hastes eram curtas. Mas à parte isso, tudo correu lindamente. É claro que, no fim da aula, lhe pedi que fosse à óptica substituir as hastes por umas mais longas, “ah, porque assim vão ficar-me largos”, dizia a pequena, ao que tive lhe fazer entender que o importante era que me ficassem bons a mim. Pareceu compreender, o que não quer dizer que ponha tal entendimento em prática. É pena.
Ontem, enquanto me dirigia para a sala, apercebo-me de um jovem que, de costas e em visível desequilíbrio, vinha na minha direcção. Só tive tempo de pensar “será uma dança destas da moda?” e o bailarino em desequilíbrio faz-me uma razia e enrola-se com Mancha mobile, caindo, mas levantando-se num ápice e, com um ar muito atrapalhado:
- Aí, oh pressora, desculpe lá!
Ora eu cá sou justa e o jovem não me havia feito mal algum, então disse-lhe:
- Não é a mim que tens de pedir desculpas, é ao trolley!
Mas disse-o com uma expressão solene. Ao que o jovem, de imediato, e com visível arrependimento, virou-se para o Mancha mobile e disse:
-Aí, desculpe lá!
Eu estava a brincar. Mas ele não.

22 de outubro de 2016

De Directora para Directora


A vida é um mistério insondável, uma travessia íngreme, árdua, injusta. E saibam que se o afirmo, é porque sei do que falo: tenho este ano uma direcção de turma. Mas também tem o reverso, esse alento que nos arranca da modorra e nos impele ao desafio, e que faz crescer em nós uma vaidade saudável, afinal, sou directora de alguma coisa.
Tento, assim, como directora, levar a bom porto os barcos tormentosos que se desnorteiam no mar encapelado que é a vida escolar. Cresce em mim uma missão de faroleira e vá de orientar os barqueiros para as amenas costas do bom comportamento. É árdua a tarefa, extenuante, mas, paulatinamente, vou recebendo pequenas pérolas como a que passo a descrever.
Acompanhei, com a colega C.R., a turma ao Centro de Ciência Viva. No entanto, estive com os alunos apenas durante o percurso, tendo-lhes pedido, antes de os deixar, que se portassem bem, que, pelo menos, fora da escola, não me fizessem sentir envergonhada. É claro que este pedido é apenas fruto da minha extrema timidez, não que se trate de uma turma agitada, mal comportada, faladora, desrespeitosa, pouco trabalhadora e imatura, que não tem particular apetência para acatar pedidos ou cumprir regras.
Depois de muitas recomendações, a M.V. lá respondeu, com um sorriso descarado “Sim, mãe!”, como quem diz, deixa-te disso, que o que havemos de fazer, sabemos nós.
Pois bem, ontem, à saída da aula com outra turma, estava a minha.
-Pressora, pressora , portámo-nos bem!  - disseram em coro, daí a dicção estar afectada.
- Pois, já me disseram, fiquei contente! – comentei, séria.
E diz logo o D.S., com o seu jeito de homem feito em corpo de 13 anos:
- Oh, tã que jête nã pertarmos, melhér!

Soltei uma gargalhada interior e pensei que isto de ser directora é bom, embora não me importasse que quem de direito aceitasse a minha demissão. 

20 de outubro de 2016

Pares fofinhos


A M.E. hoje disse assim:
- Professora (quando não está nervosa, a dicção já lhe sai perfeitinha, perfeitinha), podemos fazer a ficha a pares?
- Sim, não me importo, desde que trabalhem… – respondi.
- E podemos fazer pares de 4?- perguntou, com o ar mais inocente que se possa imaginar.
Houve por momentos um silêncio, entre o pesado e o constrangedor, acompanhado de expressões faciais que denunciavam o impasse em que se quedaram os nossos cérebros. Estaria a desafiar-nos? Seria aquilo fruto de alguma súbita indisposição?
Eu cá não respondi, mas lá que me ri, isso ri, embora de forma pedagógica, naturalmente.
- Oh pressora! – respondeu. Note-se como a dicção se lhe afectou, em virtude o nervosismo por que foi tomada.
E tudo decorria dentro da normalidade possível, quando, a propósito de verbos auxiliares, escrevi um exemplo no quadro: “Tenho comido muito ultimamente”. Mal acabava de o fazer, já o A. entornava esta pérola:
- Por isso é que a professora ‘tá gorda!
- Oh A., e um eufemismozinho não cairia aí melhor? – disse logo eu, que não perco uma oportunidade para testar os conhecimentos dos pequenos. Era isso, ou dar-lhe um estalo e ordenar-lhe que fosse chamar gorda a outra.
Prossegui com:
- E já agora sabem o que é isto de eufemismo, não sabem?
A M.E. deu a resposta de que nenhum gramático ainda se lembrou:
- Oh, é aquele que é fofinho!
- Ora que bela definição! – respondi. E, professoral, ainda com ganas de me ir ao A. e dizer-lhe a quem é que ele podia ir chamar gorda, lá lhes disse que quando me quiserem chamar gorda, coisa disparatada, vinquei, que digam antes que sou anafadinha, que sou cheiinha, terá, para eles, o mesmo efeito, com a grande diferença de eu quase gostar.
Mas ouve-se agora muito que “nada é por acaso”, e esta intervenção do A., a quem não sei se não terei de dar um valente enxerto de porrada, serviu-me para futuramente inovar quando estiver a dar a definição de eufemismo: recurso estilístico que torna tudo fofinho. Até as festinhas que farei nas costas do A., com uma varinha de marmeleiro.

18 de outubro de 2016

FURADORES E BACTÉRIAS



Mal entrei, a M.E., que dias antes, também no início da aula, se pusera, muito séria, à minha frente, querendo saber se estaria com febre, situação que cientificamente para mim não tem segredos e que avaliei com uma mão na testa da pequena e uma frase toda ela revestida de conhecimento “ Nã tens fébre nada, vais masé sentar-te!” , frase esta, que lhe deu uma segurança tal, que a pequena, se estava adoentada, lhe passou a enfermidade de imediato. Ora dizia, mal entrei, a M.E., com o seu ar mais dócil e ingénuo, veio ter comigo para me colocar esta pergunta:
- Professora (sim, a dicção já melhorou), tem aquela coisa que faz furos em folhas de papel? – o ar era sério e dócil e nas mãos tinhas umas quantas folhas…
Olhei-a com um certo pasmo, enquanto continha a risada que não podia soltar, e respondi, pedagogicamente, claro está, que o objecto que demandava dava pelo nome de furador e que, embora normalmente fosse utilizado para furar folhas de papel, seguramente também furaria a folha de uma oliveira, e quem dizia oliveira, dizia castanheiro, enfim, fazia furos.
Pareceu-me esclarecida, tendo soltado um
- Oh, pressora! – note-se que, dado o nervosismo, a dicção se lhe alterou.
Ora mal sabia eu que o melhor estava para chegar.
À tarde, mal pousei o Mancha Mobile, vem logo o L. B., muito despachado e com um largo sorriso:
- Oh pressora, já falou com o pressor de Ciências?
- O professor P.C.? Sim, falei de manhã, porquê? – perguntei, curiosa e achar que aquilo trazia água no bico.
E o L.B., desbocado, toca de me elucidar:
- O pressor tava a passar um powerpoint e perguntou-nos se não tínhamos nada para dizer…
- Sim… - respondi a tentar perceber onde aquilo ia dar.
Quem continuou foi a C. R., que originou uma grande contrariedade ao L.B..
- Sim, pressora e a gente perguntou ao pressor se ele queria que a gente dissesse que o powerpoint estava bonito, mas a gente disse que só os da pressora é que estão bonitos!
E não se pense que a C.R. disse isto por dizer, pois a grande maioria da turma abanava afirmativamente com a cabeça. É certo que se lhe notava uma espécie de ironiazinha, que eu ignorei por não me interessar.
- Muito bem, jovens alunos. Estiveram muito bem! – disse eu, francamente agradada, por ver tamanha espontaneidade e reconhecimento em todo o investimento que coloco nas minhas apresentações. Aliás, que lhes caia o céu em cima das cabeças, se alguma vez os treinei para tal resposta!
- Ah, e pressora – a voz é novamente do L.B. – o pressor P.C. disse para dizermos à pressora que os powerpoints deles são mais bonitos.
Irritei-me.
Irritei-me, naturalmente que sim. E tomei uma medida drástica. Eu, que não sou de “leva e traz”, disse logo aos moços:
- Então digam lá ao professor de Ciências que a professora de Português o desafia para um concurso de powerpoints. Mas uma coisa séria, com júri e tudo.
É então que a C.R. profere:
- Os da pressora são melhores. Os do pressor é só bactérias!

Duvido que, perante este facto, o professor de Ciências se atreva a aceitar o desafio que lhe propus.