12 de abril de 2016

3º período - dia 7 - #diasquemefazemriregostardoquefaço

Atravessei a ponte e, mal entrei no bloco, foi isto:
"Pressora, pressora, coma lá! - eram umas alunas, que, num grito de desapego, me estendiam uma lancheira cheia de gomas, pastilhas e toda uma parafernália de coisas doces.
Parei de imediato e disse-lhes, ante o espanto da colega L.R., que me ladeava pela esquerda:
- Acho de muito mau tom que, sabendo que eu a fazer dieta, me venham oferecer coisas destas! 
- Mas vêm de França, pressora! - insistiram.
- Ah, se vêm do estrangeiro, é outra coisa! - respondi, que eu cá sou muito pelas boas relações internacionais - enquanto ia escolhendo o que mais me agradava. Mas não estava sozinha, a colega L.R. também aprecia a multiculturalidade e já estava também a subtrair pastilhas,  para gáudio das jovens alunas. 
Feito o corredor, essa travessia hercúlea, lá comecei a aula, da qual faz parte o A. M., dono de uma criatividade desmedida, só suplantada pela forma peculiar com que organiza a sua mesa de trabalho. Vai daí, a cada aula, lá vou eu, logo no início, simplificar-lhe tal tarefa. Hoje, porém, não o fiz. Ia já  num desembaraço de fazer inveja, quando me apercebi de que me tinha esquecido de dar um jeitinho à dita mesa.
- Oh, A., vamos lá arrumar a casa, que não gosto de desarrumação! Para isso já me basta o estado em que a minha às vezes anda...
Ouviu-se, então, do fundo da sala:
- Hashtag aspirador! - era o D.G., com o sorriso matreiro de quem sabia que me ia desarmar. 
Não pude deixar de reconhecer a pertinência do comentário, razão pela qual esbocei uma expressiva gargalhada, imediatamente seguida de um "Vamos lá continuar, que eu estou aqui é para trabalhar", que eu cá sou muito competente e não gosto nada de sorrir para os alunos, muito menos de esboçar gargalhadas.

A tarde foi calma, orações relativas, que é pitéu muito apreciado e informações sobre as apresentações orais que têm de fazer. A este propósito, fiz-lhes um brevíssimo apanhado sobre o conto que servirá de ponto de partida, que valeu o sonoro comentário do jovem A.
- Shi, já tou cheio de vontade de ler o conto, pressora! - exclamou, de olhar muito vivo.
Chego, portanto, à conclusão de que sou mesmo muito boa a fazer brevíssimos apanhados. 
Após o toque de saída, a M. e a N. vieram ter comigo para me mostrarem os seus telemóveis novos: uma folha dobrada, na qual desenharam um ecrã e um teclado e com a qual se comunicam. Ouçamo-las:
- Pressora, a gente finge que é bué bué burras e que 'tamos a falar uma com a outra. 
Pus o meu ar mais sério, porque isto de contrariar os moços pode correr mal para o nosso lado, peguei no Mancha Mobile e saí da escola, em busca de alguma sanidade.
Ainda não a encontrei.

8 de abril de 2016

3º Período - dia 5 - Os artistas


Cá vai o breve apontamento com o que de hoje foi feita a minha manhã.
Enquanto registavam os apontamentos nos respectivos cadernos, que entusiasta e atentamente copiavam do quadro, o A. apontou uma falha que eu cometera e disse logo:
- A pressora pôs a frase, mas não pôs exemplo atrás.
Aflita, apressei-me a corrigir tão grave descuido, e quando digo que me apressei, quero dizer que escrevi Ex.: com uma rapidez tal, que, avaliar pela expressão de pasmo dos moços, em momento algum consegui atingir tal destreza e celeridade. É claro que isto valeu logo um ah colectivo, tendo o W. aventado um Pressora, faça lá outra vez!, embrulhado num largo sorriso manhoso. Eu cá não me desmanchei e disse:
- Sabes, W., quando se é, assim, artista, nunca nada é igual ao que já foi... - e sorri-lhe, com um ar de descarada vaidade.
Foi então que o W., com o mesmo ar, me calou: 
- Eu sei, pressora, está sempre a acontecer-me.

6 de abril de 2016

3º Período - dia 3 - Noções de ortografia e caligrafia


Há muitos dias que os  meus dias andam do avesso, não me restando tempo para os pequenos fait-divers que não param de acontecer.
10 e pouco. Aula de Português, está bem de ver. O jovem e empenhado G., de braço levantado, põe a questão que o exaspera:
- Pressora, trouxe é com dois s ou com ç?
- É com x. – respondi , valorizando, naturalmente,  a apresentação das alternativas.
Depois deste momento sobre ortografia, veio outro, não menos importante.
Vendo que os jovens não tinham ficado esclarecidos relativamente ao emprego do verbo auxiliar na voz passiva, de marcador em riste, dirijo-me ao quadro e escrevo uma frase, que implica reflexão. Satisfeita com o enigma que estava a criar, comento:
-Ora, temos aqui um problema…
e as reticências caem aqui quem nem uma luva, pois o M., adiantou-se, com o seu omnipresente sorriso:
- É a sua letra, pressora

E assim se encerra este dia, com a imperiosa necessidade de aperfeiçoar caligrafia.

30 de novembro de 2015

DIA 55 - FIGURAS QUE UMA PESSOA FAZ

A aula decorria normalmente, um está calado aqui, um estão a entender ali, eis que se ouviu o toque de um telemóvel. Francamente indisposta, aumentei o volume da voz, para dizer o seguinte:
- O dono do telemóvel vai já desligá-lo, nem sequer quero saber quem é. Desliga-o e acabou-se!
Devo referir que o tom era altamente profissional, como sempre, claro.
O telemóvel continuava a tocar, ao que perguntei:
- É preciso chatear-me? - isto já com a aula parada e no rosto traços verdadeiramente ameaçadores.
Foi então que o jovem H., disse:
-Pressora, mas o som vem do Mancha mobile!
- Ya! - disseram os outros alunos. Em coro.
- Ai desculpem, desculpem, desculpem... - palavras acompanhadas de uma corridinha do fundo da sala até à minha mesa.
Ouvi logo o A. a dizer:
- Falta disciplinar para a pressora!
Ia dizer que sim, que eu merecia uma falta disciplinar, mas o G. nem me deixou abrir o bico. Disse logo:
- Népia, como é a primeira vez, a gente dá uma abébia à pressora.
E assim acontece na minha sala de aula.
Obrigada pela abébia, turma.

26 de novembro de 2015

DIA 53 - LIÇÃO DE LITERATURA: IRONIA E HIPÉRBOLE



Hoje dei por mim a observar os meus alunos a trabalhar. Lá estavam, com um ar que parecia de concentração. Um ou outro lá me chamava para esclarecer alguma dúvida, e pouco mais... vai daí, senti que estava na hora de atirar ao ar uma ou outra palavrinha e saiu-me um breve comentário:
- Muito se trabalha aqui!
- Isso é ironia, pressora!, respondeu o J., que agora parece andar ao desafio com os colegas a ver quem sabe mais recursos estilísticos.
- Bom, até nem estava a ser irónica... - disse-lhe.
Continuaram, e eu também:
- Ponham os olhos no D. E., o exemplo de um aluno concentrado e trabalhador! 
A risada lá surgiu e que sim, que neste caso eu estava mesmo a ser irónica, que não havia engano. 
- Claro que se a pressora dissesse isso em relação a mim, não seria ironia. - disse-me o D., com um largo sorriso manhoso.
- Pois não, seria uma hipérbole! - respondi-lhe, não contendo uma sonora gargalhada.
- A gargalhada da pressora tem mais piada do que as piadas que diz! - palavras da M.E., que me caíram como um estalo.
- Ya! - concordaram os restantes.
Percebi que tenho de voltar a falar na hipérbole, a ver se percebem as minhas graçolas.


25 de novembro de 2015

DIA 52 - LIÇÃO SOBRE VERBOS - 2ª PARTE


Hoje, uma vez mais, falei sobre verbos. A outra audiência. Muito atenta, por sinal. Vai daí, lá vêm os regulares e os irregulares. E vá de dizer aos moços que há também uns que se chamam defetivos, informando-os de que estes têm uma conjugação incompleta e dando-lhes vários exemplos. Que sim, que estavam a entender tudo. Que estava tudo muito claro. E acho que estava, pois o H., com uma expressão professoral, referiu:
- Ah, então são verbos defeituosos!
Eu cá nem tempo tive para intervir, isto porque o V., com um ar de quem já tinha percebido isso há muito tempo, respondeu ao colega:
- Claro, não vês que até começam por def?
Ante a turma, que estava a achar tudo muito normal, só me atrevi a dizer:
- Olhem moços, se dessa forma for mais fácil memorizarem o nome, que assim seja!
Quando não os podemos vencer...

24 de novembro de 2015

DIA 51 - LIÇÃO SOBRE VERBOS

Comecei a aula com verbos. Depois dos regulares e irregulares, surge o pedido:
- Jovens, conjuguem o verbo colorir no presente do indicativo, se faz favor! 
- Eu coloro... ãh? - reagiram os jovens à primeira tentativa, ainda confiantes de que conseguiriam. 
Já impacientes, que é coisa que lhes acontece com alguma frequência, começam a dar sinais de desistência:
- Oh pressora, isto não faz sentido! - diziam-me uns quantos. Nem tempo tive para a resposta, já que a sala estremeceu, com o grito de descoberta do W.
- JÁ SEI! É EU PINTO!
E assim termina esta lição.