30 de novembro de 2015

DIA 55 - FIGURAS QUE UMA PESSOA FAZ

A aula decorria normalmente, um está calado aqui, um estão a entender ali, eis que se ouviu o toque de um telemóvel. Francamente indisposta, aumentei o volume da voz, para dizer o seguinte:
- O dono do telemóvel vai já desligá-lo, nem sequer quero saber quem é. Desliga-o e acabou-se!
Devo referir que o tom era altamente profissional, como sempre, claro.
O telemóvel continuava a tocar, ao que perguntei:
- É preciso chatear-me? - isto já com a aula parada e no rosto traços verdadeiramente ameaçadores.
Foi então que o jovem H., disse:
-Pressora, mas o som vem do Mancha mobile!
- Ya! - disseram os outros alunos. Em coro.
- Ai desculpem, desculpem, desculpem... - palavras acompanhadas de uma corridinha do fundo da sala até à minha mesa.
Ouvi logo o A. a dizer:
- Falta disciplinar para a pressora!
Ia dizer que sim, que eu merecia uma falta disciplinar, mas o G. nem me deixou abrir o bico. Disse logo:
- Népia, como é a primeira vez, a gente dá uma abébia à pressora.
E assim acontece na minha sala de aula.
Obrigada pela abébia, turma.

26 de novembro de 2015

DIA 53 - LIÇÃO DE LITERATURA: IRONIA E HIPÉRBOLE



Hoje dei por mim a observar os meus alunos a trabalhar. Lá estavam, com um ar que parecia de concentração. Um ou outro lá me chamava para esclarecer alguma dúvida, e pouco mais... vai daí, senti que estava na hora de atirar ao ar uma ou outra palavrinha e saiu-me um breve comentário:
- Muito se trabalha aqui!
- Isso é ironia, pressora!, respondeu o J., que agora parece andar ao desafio com os colegas a ver quem sabe mais recursos estilísticos.
- Bom, até nem estava a ser irónica... - disse-lhe.
Continuaram, e eu também:
- Ponham os olhos no D. E., o exemplo de um aluno concentrado e trabalhador! 
A risada lá surgiu e que sim, que neste caso eu estava mesmo a ser irónica, que não havia engano. 
- Claro que se a pressora dissesse isso em relação a mim, não seria ironia. - disse-me o D., com um largo sorriso manhoso.
- Pois não, seria uma hipérbole! - respondi-lhe, não contendo uma sonora gargalhada.
- A gargalhada da pressora tem mais piada do que as piadas que diz! - palavras da M.E., que me caíram como um estalo.
- Ya! - concordaram os restantes.
Percebi que tenho de voltar a falar na hipérbole, a ver se percebem as minhas graçolas.


25 de novembro de 2015

DIA 52 - LIÇÃO SOBRE VERBOS - 2ª PARTE


Hoje, uma vez mais, falei sobre verbos. A outra audiência. Muito atenta, por sinal. Vai daí, lá vêm os regulares e os irregulares. E vá de dizer aos moços que há também uns que se chamam defetivos, informando-os de que estes têm uma conjugação incompleta e dando-lhes vários exemplos. Que sim, que estavam a entender tudo. Que estava tudo muito claro. E acho que estava, pois o H., com uma expressão professoral, referiu:
- Ah, então são verbos defeituosos!
Eu cá nem tempo tive para intervir, isto porque o V., com um ar de quem já tinha percebido isso há muito tempo, respondeu ao colega:
- Claro, não vês que até começam por def?
Ante a turma, que estava a achar tudo muito normal, só me atrevi a dizer:
- Olhem moços, se dessa forma for mais fácil memorizarem o nome, que assim seja!
Quando não os podemos vencer...

24 de novembro de 2015

DIA 51 - LIÇÃO SOBRE VERBOS

Comecei a aula com verbos. Depois dos regulares e irregulares, surge o pedido:
- Jovens, conjuguem o verbo colorir no presente do indicativo, se faz favor! 
- Eu coloro... ãh? - reagiram os jovens à primeira tentativa, ainda confiantes de que conseguiriam. 
Já impacientes, que é coisa que lhes acontece com alguma frequência, começam a dar sinais de desistência:
- Oh pressora, isto não faz sentido! - diziam-me uns quantos. Nem tempo tive para a resposta, já que a sala estremeceu, com o grito de descoberta do W.
- JÁ SEI! É EU PINTO!
E assim termina esta lição.

23 de novembro de 2015

DIA 50 - DESAMORES, FINADOS E BURROS



Hoje falou-se de eufemismos. E vá de tentar que os moços descobrissem, e vá de dar uma ajuda, e vá de insistir, até que, o G., muito despachado, como só ele sabe ser, se saiu com esta pequena pérola:
- Oh pressora, isso do eufemismo é o mesmo que, tipo, eu andar com uma rapariga e querer acabar com ela e em vez de lhe dizer “ - Não quero saber de ti para nada…”, dizer , tipo, “Ah, eu não te mereço, tu não tens culpa nenhuma, mereces alguém melhor do que eu…”
- Isso! Isso mesmo, G.! – respondi eu, satisfeitíssima por o pequeno ter dado uma demonstração clara de ter entendido tudo muito bem.
Ora, a A. não se quis ficar atrás, e vá de dar também provas de toda a compreensão que se abateu sobre ela:
- Pressora,  – dizia-me – é assim, tipo… a minha tia ‘tava… quer dizer, a minha avó morreu, não é?
- Não sei… -respondi entre o lamentar o desaparecimento da senhora e o tentar perceber onde estava a jovem A. a tentar chegar.
- Sim, pressora, morreu! Mas, tipo¸o meu pai quando chegou a casa disse à minha mãe, em vez de “ela morreu”, disse tipo “ A tua mãe finou-se”! – esclareceu a A., terminando com uma estrondosa gargalhada, que os outros pequenos iam começar a acompanhar, mas que estancaram, depois de se aperceberem de que eu não me estava a rir.
- Certo, A., claramente entendeste o que é um eufemismo. – disse-lhe. Gostava de ter comentado que não entendi a referência à tia, mas achei que seria uma longa conversa, que exigiria um tempo de que não dispunha.
Ainda na mesma aula, a determinada altura, percebi que não me estava a fazer entender… aliás, o F. até pediu:
- Poderia ser mais explícita, pressora?
Eu queria que chegassem à ideia de juventude, vai daí, saiu-me uma questão inocente:
- Reparem, eu tenho 39 anos, vocês têm 12, então, em relação a mim, vocês são o quê??
- Burros, pressora! – foi a resposta.
Importa dizer que veio em coro.

São uns queridos, os mocinhos…

20 de novembro de 2015

DIA 49 - DE TUDO UM POUCO, A PEDIDO DA D.G.



Já vou com uns dias de atraso, bem sei, e a minha colega de appartement bem mo fez lembrar hoje.
O diálogo, à semelhança do que acontece diariamente com várias pessoas, decorreu com toda a normalidade. Possível. Com toda a normalidade possível, pois quando se trata de conversar com certas e determinadas pessoas que eu cá sei, e que são muitas, não vá já alguma começar com “De certeza que não está a falar de mim…”, nunca se pode almejar um alto nível de normalidade.
O intervalo era o das 10h. A colega D. por ali cirandava a dar dedos de conversa, eis que se aproximou e se encostou ao balcão lá da sala de professores, que neste intervalo faz de taverna, mas daquelas chiques, não se pense que anda ali gente a cuspir cascas de tremoços para o chão. Nada disso. Ora a D. chegou, e eu, simpática, como sempre, não tenho culpa deste dom que nosso senhor me deu, perguntei, como quem espera uma resposta afirmativa:
- Olá, D., tá tude bém?
O sorriso foi largo e a resposta foi, perdoem-lhe a gritaria:
- NÃO!  - respondeu,
- Melhér, o que tens tu?
- Por que é que não tens escrito? Saio da escola à noite (a colega D. trabalha muito), vou à varanda fumar um cigarrinho, ligo o Face, vá de procurar e… nada!
- Eu não tenho tido tempo…
- Achas que isso é razão para não escreveres? E eu??
Levei a tarde toda a tentar encontrar um bocadinho para escrever, p’ra ver se a mulher se cala. E cá estou.
A semana decorreu calmamente.
Tenho um trolley, chama-se “Mancha mobile”, ou “Mancha móvel”, dependendo de quem o chama. É bonito e faz furor. Tanto, que hoje de manhã ao percorrer o corredor, um jovem aluno deu-lhe um pequeno toque, virei-me de imediato e a criança, pálida, desfez-se em desculpas. Gostei.
Além disso, sempre que entro na sala, a turma que o baptizou faz questão de me cumprimentar. A mim e a ele. É mais ou menos isto:
- Olá pressora! Olá Mancha mobile!
Atravessar a ponte começa a ser uma aventura para os peões, tal a quantidade de carrinhos destes que andam a rolar pela escola. E mais virão, até porque o colega J.D. foi ontem avistado a fazer uma demonstração das potencialidades do seu trolley a vários outros colegas, que estavam estarrecidos. Parecia aquilo uma reunião da Tupperware. Coisa bonita!
A D.ª F. garantiu-me que já falou com um sr. Engenheiro no sentido de criar uma rampa ao lado das escadas, para que possamos subir para a sala, sem ter de recorrer ao elevador, que dá um certo aspecto de sedentarismo, coisa de que nós, possuidores de trolleys, não somos praticantes.
O V. é já o primeiro elemento júnior do TecnoRodas, Clube de Trolleys da Escola Básica Tecnopolis, pois também já tem o seu trolley. Segundo me disseram, o N. também quer um.
É claro que a tendência é evoluir e até já há quem ande a dizer que, bom, bom, era ter um telecomandado. São as vozes da inveja. Mas lá que era giro, era giro!
O V. mostrou logo o seu trolley à colega L. C., dizendo:
- A pressora também faz parte do TecnoRodas??
A colega não se ficou, inchou e respondeu:
- Sou membro fundador, V.!
Até a estou a imaginar, sem caber em si de vaidade.
Quanto aos cacifos, tudo anda muito calmo. Apenas a colega D. deixou um aviso, que atirou para o ar, mas que percebi que era para mim:
- Já ando farta daquele menino da lágrima!
- Toca-lhe! – pensei eu. Só não lho disse, não fosse ela mexer na criança e eu ter de me aborrecer deveras, que não seria coisa bonita de se ver.
A D.ª C. também me disse que o Sr. D. lhe tinha dito que, se calhar, quem me ratou as bolachas foi um rato. Eu cá acho que não. Eu até tenho praticamente a certeza de quem foi…

Por ora não conto mais nada. Tentarei voltar na segunda-feira.  

11 de novembro de 2015

DIA 42 - TECNORODAS - A ROLAR CONTRA AS DORES NOS COSTADOS



A escola onde trabalho é, como já terão percebido, uma escola de gente muito sã. Mentalmente muito sã. A parte física é que anda toda descadeirada. Ele é costas, ele é vesículas, ele é tendinites, ele é músculos... enfim, é todo um manancial de maleitas, que aquilo, às vezes mais parece a esquina do Posto Médico lá da minha terra, onde os mais velhos se reúnem para o sobejamente conhecido desafio "eu tenho mais dores que toda a gente". 
Ora, aqui e ali, começaram a aparecer umas mochilas com rodas, vulgo trolleys , que me foram despertando a atenção. Comecei a perceber que o número destas geringonças estava a aumentar. Mas há assim tanta gente com problemas nessa escola?, perguntar-se-á o estimado leitor. A resposta é inconclusiva, pois, parece-me, há gente que, só para ter uma destas mochilas rolantes, começou a sentir pontadas no corpinho todo. Ora, se os outros têm pontadas, o que sou eu a menos que eles para não as sentir também. Vai daí, também comprei um trolley.
Estreei-o hoje. Enquanto deslizava pela sala, eu e o trolley, o A. perguntou: 
- Oh pressora, mas isso agora é moda cá na escola?
Pela questão do petiz, dá para perceber a quantidade de bichos destes que andam a rolar pelo corredor.
Perguntei à turma que nome lhe devia dar. Ouvi vários, mas o do J. foi o que mais me agradou: 
- "Mancha mobile", pressora!
Nisto, tive uma ideia, daquelas boas: pedir aos moços que, num papelinho, escrevessem um nome, para que eu depois pudesse escolher o melhor. Assim foi, e assim que me decidir, haverá uma crónica, tipo cerimónia de baptismo.
E o leitor não acha estranho, haver tanta gente com um trolley e não se formar logo uma associação, ou um clube, ou outra coisa qualquer, que dê seriedade a este movimento? Naturalmente, já pensámos, de forma ponderada e séria, nesse assunto. Foi na ponte, entre um ai que não me apetece ir dar aula e um bora lá mas é!, que a coisa se decidiu. Veio da L.C., o nome. E o nome é : TECNORODAS.
Sim, na minha escola formou-se o clube de trolleys, porque na minha escola dá-se importância às coisas importantes. E sim, já conseguimos o patrocínio do colega L., para uma corrida no autódromo. E eu cá já me estou a imaginar, na linha de partida, a olhar para os olhares ansiosos dos meus colegas e eles a olharem para o meu olhar competitivo e todos a sentirmos a adrenalina do momento e eis que se ouve o tiro de partida (será a N., com a sua pistola de fulminantes) e todos a rasgar as curvas, rumo à vitória.
Brevemente será agendado um beberete para os membros do clube, que decorrerá na sala de professores, sob o olhar de invídia de todos aqueles que não pertencem a este grupo vanguardista.
Tenho cá para mim, que sei qual é a prenda de Natal que muitos destes colegas irão pedir. E peçam, sim, e venham, em Janeiro, com os vossos trolleys, para , juntos, rumarmos em direcção ao pôr do sol, qual cowboys do conhecimento, destemidos, e corajosos a dizimarem as contraturas e as tendinites.