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19 de outubro de 2015

DIA 23 - CHOURIÇA E PEIXE FRESCO


Agora soa um zumzum lá pela escola de que fiquei com a chouriça e nem a partilhei com ninguém. Ah, povinho este, parece que anda tudo morto de fome! Pois que se fique a saber que a chouriça está intacta, em lugar seguro. E que não me venham pedir explicações, que a chouriça é minha e faço com ela o que eu quiser.

Segunda-feira, fim da primeira aula, senti que estava pronta para outro fim-de-semana. Não se pense que não gosto dos petizes, gosto, mas… como dizê-lo… há um quê de parvoíce generalizada entre eles, que me anda a dar umas certas agasturas.

A A., por uma qualquer razão desconhecida, não conseguia conter o riso. Achei por bem fixar estes belos olhos castanhos com que a Providência me presenteou na sua expressão divertida e perguntar:
- Posso saber o que se está a passar? – eu sirvo-me sempre da delicadeza, até porque poderia estar a dar-se alguma coisa que não me dissesse respeito e se há coisa de que não gosto é de me imiscuir em contas que não são do meu rosário.
- Nada pressora! – e, num ápice, deu um saltinho na cadeira, gesto muito falho de graciosidade, que a deixou direita que nem um fuso, desaparecendo do seu rosto qualquer sinal de felicidade.

À tarde, estava eu a tentar vender o meu peixe, fresquinho, está bem de ver, quando percebi que a parvoíce generalizada me estava molestar. Como já haviam sido feitos inúmeros esclarecimentos sobre as consequências que a parvoíce generalizada tem sobre mim, achei por bem passar à acção e pedir ao F.V. e à R. que saíssem da sala. Mas não se pense que houve alarido ou alguma animosidade, nada, apontei para ambos, que estava lado a lado, numa conversa que parecia ter um nível de interesse superior ao do meu peixe, e fiz-lhes sinal para que saíssem. O F. franziu o sobrolho e pareceu-me indignado, seguramente consigo próprio por não estar a aproveitar o pitéu que eu lhes estava a oferecer; já a R. teve a expressão de quem parece já estar habituada.

Ao toque, os moços saíram e, na pacatez da sala silenciosa, pensei nos meus pais e carga de porrada que me deveriam ter dado quando lhes comuniquei a decisão de querer ser professora.