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20 de setembro de 2017

Dia 5 - Autobiografias e palavrões

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Hoje quis ver de que é que os moços são capazes na escrita. Pedi-lhes uma autobiografia. “Uma quê?” lá iam perguntando e depois de lhes explicar o palavrão, que é coisa de que não gosto, puseram mãos à obra. Ora o M.C. estava a sentir-se muito perdido e comentou que se eu fizesse perguntas era muito mais fácil. Eu, que não gosto de ver ninguém em aflições (é isso e palavrões), decidi pôr uns tópicos para o orientar. O primeiro era “identificação”. Passaram uns minutos e o N.M. chamou-me para perguntar se era preciso pôr o número do CC.. Esclarecida a dúvida, os jovens continuaram. Ao fundo, ouvi um “Fogo, isto mexe bué”, o que me deixou a pensar, mas por pouco tempo, porque o M.C., visivelmente agastado, retoricamente perguntava ao J.I. por que é que ele ‘tava a espreitar, se era para tirar ideias. Ora, apesar do tom de voz, o M.C. estava coberto de razão, pois a ser verdade que o J.I. estava a querer copiar, isso seria uma usurpação de identidade, o que não está certo. Além disso, o M.C. até já tinha o seu texto pronto. Achava ele, não fosse não ter atingido o limite mínimo de palavras, aspecto para o qual lhe chamei a atenção. Contrariado, lá me tentou convencer de que aquilo já chegava. Como não me demovia, tentou impressionar-me:
- ‘Tã nã chega porquê? Tenho aqui 9 ou 10 vírgulas, tenho pontos finais e tudo! Nã chega porquê?
Lá argumentei e devo tê-lo feito de forma francamente convincente, porque o M.C. pôs novamente mãos à obra e segundos depois já tinha escrito um parágrafo inteiro.
Percebi que a contagem de palavras é um assunto que terei de estudar com os moços. É que o G.B., com duas linhas escritas, assegurava-me que já tinha as 150 palavras, que já passava e tudo. Ora eu, que não perco uma oportunidade de ganhar seja o que for, quis logo apostar que não estavam. Ele não se convencia, até que me pus a contá-las à sua frente, ao que me respondeu:
- Ah, mas não é assim…
Percebi que contara as letras.
Depois foi a vez do R.:
- Oh pressora, 16 é duas palavras não é?
Confusa, fiz uma expressão abstracta, ao que ele me esclareceu:
- ‘Tão “um” e “seis”.
Eu não respondi, felizmente chegou por ele à resposta correcta. Há que dar espaço à autonomia dos jovens, sempre defendi isso!
À autonomia, mas não à falta de respeito, que é coisa de que não gosto, sobretudo se acompanhada de palavrões. Como o que acontecera na aula anterior, quando, tentando que me dissessem o nome de uma função sintáctica, começaram a atirar-me com todos os Complementos de que já tinham ouvido falar e outros inventados no momento. Altura em que o R. disse:
- Predicado!
Eu cá fiquei logo enervada e a minha expressão mudou. Perguntei quem é que tinha dito aquilo. O R. acusou-se, sorridente, assegurando que tinha dito “ao calhas”.
Aproximei-me dele de semblante carregado, pus-me à sua frente e, olhos nos olhos, disse-lhe:
- Já conversámos sobre desrespeito e esta será a última conversa sobre este assunto. Não admito esta falta de educação nas minhas aulas, não admito que voltes a repetir esta palavra! Faço-me entender?!
O R., humilde, baixou a cabeça e pediu desculpas.
A T. é que não se deixou ficar e disse logo, na sua habitual delicadeza:
- Nã sejas burro, nã vês que ela ´tá a gozar contigo?

Esta foi a forma da T. dizer que predicado era a resposta correcta.

18 de setembro de 2017

Dia 4 - Sortido de cenas

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Tenho de ter sempre comigo um caderninho para tomar nota das pérolas que ouço nas riquíssimas aulas com o meu PCA. Houve tantas situações que mereciam uma justíssima referência, mas infelizmente a minha memória apenas reteve duas.
A propósito de um dos temas interessantíssimos (!) que lecciono, referia a importância da brevidade do texto de uma notícia, questionando os jovens sobre essa facto. Não transcrevo a resposta por incapacidade de pôr em palavras o silêncio que ali se gerou. Vai daí, vá de lhes dizer, leiam bem a minha eloquência:
- Moços, se vos trouxer para a aula um texto extenso, qual o primeiro comentário que vão fazer?
- Pode já lê-lo! - disse logo o G. E.S. com um desembaraço de pasmar.
Não contente com a resposta, por não ser a primeira que me dariam, espicacei:
- Não, esse seria o segundo, qual seria o primeiro, pensem lá!
O R., aplicado, soube logo a resposta:
- Fogo! 
- Exactamente, disse eu, professoral. -  A primeira coisa seria essa interjeição! E porquê? Porque dá "seca". - continuei eu, perante a estupefacção do R., por eu saber a resposta. De acrescentar que o R. é um moço aplicadíssimo, que só não acha bem que se tenha de fazer apontamentos nas aulas. E ler. E ouvir. E estar atento. De resto, nada a apontar!
Ainda nesta aula, comecei a apagar o quadro, onde escrevera algumas notas (as tais que o R. não acha bem que se tenham de escrever. Ah, o J. I. também concorda com o R. e desconfio que há mais, mas não quero levantar falsos testemunhos). A tarefa não estava a ser fácil, e vá de pressionar mais o apagador. E nada. E mais pressão e o raio das palavras não saiam. Apercebo-me, então, de que tentava apagar o conteúdo do "powerpoint" que entretanto começara a projectar, que eu cá sou muito pela limpeza!
A encerrar a tarde, já noutra turma, fiz um comentário ao facto de ter a J. e a M. sentadas na mesa da frente, quando, no ano anterior, se sentavam na que estivesse mais distante da minha. A J., que é uma moça muito desembaraçada, esclareceu-me logo, com aquele sorriso largo que a caracteriza:
- 'Tou aqui porque pensei muito nas férias e este ano quero ser tipo bué esperta e isso.
Antes de cair o pano, reproduzo uma conversa que ouvi hoje à saída da outra escola entre o segurança e um grupo de rapariguitas:
- Não podem sair, já sabem! - a voz é a do segurança S., que com toda a calma esclarece o que há muito é conhecido.
- Fogo! Não se pode sair, não se pode correr, não se pode nada! - argumentava uma das petizes, em alta grita .
- Fala mais baixo! - pedia o sr. S.
- Mas como é que posso falar baixo se só sei falar aos gritos? - urrava a pequena, com a impotência estampada no rosto.
O sr. S. não apresentou qualquer solução para a questão colocada, depois que não ande a fazer participações a queixar-se do berreiro.

15 de setembro de 2017

Dia 2 - A espalhar simpatia

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Tive hoje a primeira aula com a minha Direcção de Turma e a impressão foi aceitável. Um mais torcido, outro menos disponível, mas todos ansiosos pelo toque de saída. Tudo normal, portanto.
Há rostos novos no grupo, embora meus conhecidos de outros tempos, outros que são total novidade. E depois há o G. e o A., de quem me recordo, não só por parecerem pulgas hiperactivas, nas aulas de 7º ano, nas quais fazia coadjuvação, como também pelas conversas de sala de professores. Tudo coisas boas sobre os petizes, que agora têm para cima de um metro e oitenta.  Tenho a certeza de que este crescimento físico é proporcional à maturidade, ou não fosse eu uma sonhadora.
Quase no fim, o J.E. começou com a lamúria de que o bar é muito longe e que o melhor era eu deixá-los sair mais cedo. Eu cá disse logo que tal pedido era um descaramento e que não contassem comigo para tamanha pouca vergonha. Mas acrescentei, a dois minutos do final da aula:
- Para mostrar a minha flexibilidade, os alunos novos podem ir ao bar- nomeando-os e acrescentando, com um olhar sorridente - G., A., podem sair!
Os moços ficaram mesmo surpreendidos, o que se pode comprovar pela resposta do G.:
- Fogo, é a primeira vez que um pressor me manda sair mais cedo sem falta disciplinar!
Eu cá pensei "não me dês ideias, jovem", mas limitei-me a sorrir-lhe.

13 de setembro de 2017

Dia 1 - "Ganda laxa"


Com o pé direito, lá entrei, caloira, na escola para me apresentar a uma turma de PCA. Tudo correu dentro da normalidade, pequenas notas apenas dignas de registo, nomeadamente o pedido do G.E.S. para que entregue as fotocópias já furadas, pedido esse que me levou a registar na minha agenda: - comprar furador dos grandes.
Depois, enquanto falava dos critérios de avaliação e dos trabalhos que vão ser realizados ao longo do ano lectivo, ouviu-se uma voz que perguntava se aquilo era o sumário, era o G.B., que tinha uma expressão "entre o sono e o sonho", sem saber muito bem o que estava ali a fazer.
Para terminar, perguntei aos moços o que os trouxera até este percurso, assiduidade diziam uns, retenções, diziam outros, assiduidade e retenções, assegurava a maioria, até que chegou a vez de uma jovem, cujo nome ainda não memorizei, que deu a resposta  que a seguir se reproduz:
- Oh pressora, no ano passado eu 'tava no regular, mas já viu o que é ir para uma turma de 9º regular com a minha idade?? Ganda laxa! - e antes que eu fizesse qualquer pergunta, adiantou-se a esclarecer:
- Laxa é vergonha, 'tá a ver?
Ya, 'tou a ver, respondi-lhe eu, em pensamento, enquanto lhe agradecia o ter-me ensinado uma palavra cuja existência nem imaginava. Ganda laxa para uma professora de Português!

Ano novo, vida praticamente igual

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Abri o mail institucional (pomposo nome) e vejo que, infelizmente, não fora esquecida: lá estava a calendarização das actividades para este novo ano. Ainda pensei ignorá-la, que eu cá não gosto nada que me calendarizem, mas para não melindrar ninguém, lá abri o dito documento e vá de apontar reuniões.
Confesso que fico sempre muito nervosa com o início do ano lectivo, depois continuo nervosa, mas mais. Assim, com borboletas invisíveis a esvoaçarem-me na barriga, lá fui para a primeira do ano.
Entrei na sala de professores, na esperança de encontrar alguma alminha a quem eu pudesse, ao entrar na sala da reunião, atribuir a razão do meu atraso. Nada. Só as senhoras funcionárias, que me garantiram que não havia qualquer reunião marcada para aquele dia, e para me convencerem até foram chamar a D.ª F., a chefe. Ninguém me demovia, e para lhes mostrar que sei muito bem o que ando a fazer, fiz-lhes logo ver :
- Então, 5 de setembro, às 9:30!
- Professora, hoje é dia 4!
Descansei logo! é que, para além de não estar atrasada, estava na escola com 24h de antecedência.
Chama-se dedicação e competência, senhores (as) leitores (as). 

Ou destrambelho...