30 de outubro de 2015

DIA 34 - BOLACHAS, MALAGUETAS, E ALGUMAS "CÃEFUSÕES"

Há lá coisa melhor que começar o dia numa sala de professores?
 Sim! Claro que sim! Há, não uma, mas várias coisas melhores do que essa, no entanto, como o Euromilhões anda às avessas comigo, lá fui eu para a dita sala, onde a confusão já estava instalada:
- Olha lá, quem é que ratou as bolachas? - perguntou-me a L., com um ar de revolva contida.
Do que estava ela a falar, perguntei-lhe. Que alguém tinha ido à minha parte do cacifo, tinha aberto e ratado as duas bolachas do pacote. Que não estava certo, dizia-me e eu concordava, nem sequer me atrevendo a discordar.
Mas não se ficou por aqui, ouçamo-la:
- Como comi as tuas bolachas, fui comprar mais e ontem, para acompanhar o café fui buscar o pacote que restava e olha, nada!
Não está certo, de facto, dizia eu, entendendo perfeitamente a indignação da L. por alguém ter ratado as minhas bolachas, que ela me ia roubar!
Começaram as averiguações: a L. não poderia ter sido, a N. também não, porque essa nunca sabe nada, nunca vê nada, nunca rouba nada, só restava a A.R., seguramente a responsável por tão grave delito. E digo seguramente, porque como não estava na sala, não teve oportunidade para dizer que também não tinha sido ela. Ora se não negou, quem terá sido???
Ao olhar para o cacifo, tinha lá um presente: dois molhinhos de malaguetas, que agradeço, em meu nome e da D.G. . Graças a isso, temos agora o cacifo mais hot da escola.
Antes de sair, a N. deu-me o Raul, , de quem se despediu, assegurando-lhe que seria apenas um fim-de-semana e estaria de volta. Trouxe-o comigo e foi um sucesso. Desde a D.ª C., que ainda não o conhecia e ficou encantada e com um bocadito de inveja, que bem vi, à senhora que lava as escadas do meu prédio, com quem me cruzei à entrada e que comentou:
- Olha que bichinho tão bonito! - enquanto lançava um olhar embevecida.
Quem é o Raul?
Dele falarei num outro dia, até lá, fica o mistério.
Estarão todos a perguntar-se se eu hoje não falo dos alunos. Falo, pois: cá vai: está calado e presta atenção, vira-te para a frente, vai lá fora arejar as ideias. Pronto, já está!

29 de outubro de 2015

DIA 33 - A CARIDADE


Tudo estava a correr dentro da normalidade, quando três alminhas se começaram a engalfinhar por um motivo que, na altura, ainda me era desconhecido.
Como gosto de ser uma pessoa informada, vá de perguntar:
- Moças, o que é que se passa?!
- Oh, pressora, é a borracha. - respondeu-me uma pequena.
Como eu sei que as borrachas não falam, ignorei e prossegui nesta missão de elucidar jovens baralhados.
De novo, o burburinho, que já estava quase a beirar a conversa.
- Afinal, posso saber o que se passa, ou não? - perguntei, pensando que resposta dar, caso as pequenas me dissessem que não, que não podia saber o que se passava. Tal não aconteceu, pois a M. respondeu que elas estavam sempre  a pedir-lhe a borracha.
Enervei-me logo.
- De quem é a borracha?
A M. respondeu que era dela. 
- Aqui a tens. - e, enquanto respondia, encaminhei-me para a minha mesa e, do meu estojo, retirei duas borrachas, que coloquei à frente de cada uma das outras moças que estavam a perturbar a M. - Pronto, acabou-se a confusão! - disse, com ar decidido!
O E., de imediato, acompanhando as suas palavras de um devoto abrir de braços e de um sorriso matreiro, encerrou o momento.
- A pressora é a caridade!
Há lá coisa mais bonita para se chamar a um professor?

28 de outubro de 2015

DIA 32 - PERFUMES E BEIJOS

A aula correu bem. A colega S. fez o seu trabalho, eu fiz o meu, os alunos o deles.
Após o toque, o H. aproximou-se. Quase que lhe ia dar atenção, mas a colega S. desviou-me o olhar e a conversa. Minutos depois, foi ela própria que me faz sinal de que tinha alguém à espera para falar comigo. Era o H., claro, que ali ficara, educadamente, a aguardar. Devia mesmo ser uma coisa séria, pensei.
- Desculpa, H., distraí-me... diz-me! - comentei.
- A pressora tem o mesmo perfume que a minha pressora do 3º ano! - disse-me, enquanto, timidamente me sorria.
Fiquei baralhada, que é uma coisa que me acontece com alguma frequência e só me ocorreu um
- A sério?!
- Sim, quando a pressora se aproxima, lembro-me sempre dessas aulas do 3º ano!
Receosa, perguntei:
- E isso é bom ou é mau?
- É normal! - respondeu, enquanto se preparava para sair.
 Espero que a colega do 3ºano tenha sido uma referência positiva, caso contrário, terei de mudar de perfume novamente.
Mesmo ao fim do dia, já com o sol posto e a noite caída, saí da escola, com a colega C.M., depois de mais um TOP+, e encaminhei-me, na sua companhia, para o estacionamento.
A conversa cordial que mantínhamos foi interrompida por um tom aflito:
- Oh pressoras! Oh pressoras! - gritava um pequeno, sentado no passeio, na companhia de mais duas jovens da sua idade.
Olhámos e assim que percebeu que conseguira a nossa atenção, atirou:
- Ela está só a dar-me beijos! - enquanto se ria e à sua risada se juntava a das amigas.
Sem saber o que fazer, optámos pela sensatez: continuámos o nosso caminho, e deixámos o jovem entregue à sua sorte, naquela guerra de ternura.

26 de outubro de 2015

DIA 30 - A APANHA DE GAMBOZINOS

O que é Gambozino
Gambozino
imagem tirada daqui

Hoje, após uma daquelas saídas parvas que me dão amiúde, falámos sobre gambozinos e percebi que, aparentemente, ninguém sabia de que se tratava. Nem eu. Mas isso eu não contei, que professor que é professor sabe muitas coisas, inclusivamente o que são gambozinos!
Ora, decidi que nada melhor do que uma aula prática: pedi aos meus jovens alunos, como TPC, que, na aula seguinte me trouxessem um gambozino! 
Começa o burburinho: uns porque não tinham percebido o que era para fazer, outros porque estavam cheios de testes e agora ainda vinha eu com mais um trabalho, até que, finalmente, uma alminha perguntou o que era um gambozino.
- Ora é precisamente por isso que peço este trabalho: pesquisem, leiam e tragam-me um na próxima aula. - ia eu a responder, mas não tive tempo, pois a resposta clara e objectiva, veio do M., que pouco se interessa por Português, mas que sabe tudo sobre gambozinos:
- 'Tão, basicamente vais procurar um bicho que não existe! - rematou, seguríssimo, diria eu, se não tivesse acrescentado:
- A minha tia tem!
O pasmo foi geral, sobretudo o meu, que estava convencida de que estes bichos não existiam e, afinal, a tia do M. tem-nos,  na sua quinta no Ribatejo.
-Parecem, assim, tipo patos.
- Oh, M., então se a tua tia tem uma quinta, deve ter lá vários animais, certo? Que sim, respondia-me.  - Então não será um pato verdadeiro em vez de ser um gambozino tipo pato? - perguntei, verdadeiramente confusa.
- Não pressora, é tipo assim um pintainho...
- Certo M., e não será um pintainho verdadeiro?
- Oh pressora! - o tom começava a ser de exasperação.
- Ah! Então gambuzinos são pintainhos, é isso?
- Oh, pressora, gambozinos não existem! - rematou com com veemência, dando por encerrado o assunto.
Eu é que quis saber como tinha o M. chegados àquelas comparações. Percebi, depois de pesquisar, ou seja, depois de fazer o TPC que tinha pensado mandar fazer. 

23 de outubro de 2015

DIA 27 - A PÉROLA DO A.


Mais uma aula de teste. 08:25 da manhã e contorcem-se-me as entranhas com a histeria do corredor. Bom, bom, era uma mordaçazinha na boquinha destas criancinhas, penso, enquanto me levo até à sala 14, que é como quem diz, até ao fundo. Pelo caminho, um “com licença” mais áspero, uma ou outra paragem forçada para não ser abalroada pelos pequenos que, àquela hora da manhã, já estão com uma energia que em momento algum do dia consigo ter. E se dizem que eu sou enérgica!
Chegada que sou à sala, ainda antes do cumprimento e perante a agitação generalizada, perguntei aos moços, de forma retórica, se se lembravam da conversa que tínhamos tido na aula anterior, arrependendo-me de imediato, pois a resposta foi um “Siiiiimmmmmm” lancinante.
- Mais baixo , por favor.
À entrada, comecei a dar instruções sobre os lugares que deveriam ocupar. Reparo no A., o jovem místico-descarado de quem vos falei no dia nº4. Com um sorriso do tamanho do mundo inteiro e um olhar vivaço, tentava acomodar-se numa mesa ao fundo da sala, sendo vários os candidatos a quererem sentar-se perto dele. Percebi que havia uma pequena possibilidade de se estar a formar ali alguma marosca e decidi pôr mãos à obra:
- A., tu ficas aqui ao pé de mim! – pedi, com uma veemência tal, que o A. se encaminhou de imediato para o lugar indicado, enquanto, sorridente, e para quem quisesse ouvi-lo, fazia o seguinte comentário:
- A pressora é mesmo uma espertalhona!  
- Obrigada, A.  - agradeci, satisfeita. 
Afinal, quem é que não gosta de causar boa impressão?



22 de outubro de 2015

DIA 26 - MARMELOS E AZEITONAS. E BOLACHAS TAMBÉM


Hoje foi dia de teste.
Para evitar a avalanche de dúvidas, disse aos moços que apenas estaria disponível para esclarecimento de alguma questão nos 10 minutos finais.
É claro que foram pondo dedos no ar, é claro que eu ia olhando, fazendo uma aceno negativo, e a dúvida esvaía-se. Aconteceu assim com quase todos. Quase, pois o A., teimosamente, insistia em chamar-me. Fui-me sempre escusando, até que percebi que, para além de continuar com o dedo no ar, o olhar esse, começava-se-lhe a humedecer.
Contrariada, embora com o coração amolecido, perguntei-lhe o que se passava.
- Oh pressora- o tom era envergonhado – eu já soube isto, mas agora já não me lembro…
Ofereci-lhe um “sim…” expectante.
- Oh, pressora, qual é que é o fruto da oliveira?
- Marmelos! – pensei em responder, mas achei por bem não o fazer, até porque a criança estava com cara de quem iria acreditar em qualquer coisa que eu dissesse. Em vez disso, respondi:

- É a azeitona, A., é a azeitona. 

Chegada à sala de professores, sou interpelada pela L., que me disse:
- Olha tens de pôr ali mais uns saquinhos daqueles verdes...
Referia-se às bolachas que eu deixara no cacifo e que ela comera na tarde anterior.
Que eram mesmo boas, disse-me, até me perguntou onde as comprara, não que tivesse intenção de o fazer, mas para ficar informada, que a L. é rapariga que gosta de saber muitas coisas.

21 de outubro de 2015

DIA 25 - VIVALDI E AS CAIXAS OU NÃO SEI QUE TÍTULO PÔR


A manhã foi cinzenta, por isso vamos já para a tarde, e para a altura em que, após ter almoçado, me dirigi para a escola. Ainda fora do recinto, ouvi “olá pressora São”. Perspicaz, percebi logo que aquilo não era para mim, por isso ignorei o cumprimento, embora fosse, na altura, a única professora a passar. O que não percebi é que as petizas não chamavam histericamente pela professora São. Ouçamo-las:
- Pressora da conjugação!! Oh pressora da conjugação!! – gritavam com as suas vozinhas estridentes.
Fiquei baralhada, que é coisa que me acontece amiúde, mas pus-me, de imediato, à procura da relação entre a conjugação e quem eu sou. Depois de muito, percebi que queriam dizer “coadjuvação”, já que vou, semanalmente, coadjuvar a colega que lhes dá aulas. Nunca me tinham chamado um nome assim, mas isto é tudo uma questão de hábito e, confesso, até nem desgostei. Por isso, devolvi-lhes o cumprimento com um sorriso e uma mensagem, que não verbalizei, mas que era a seguinte: “Olá alunas, cuja loucura atinge limites bem para lá de razoáveis, embora fique um pouco aquém da loucura que tem esta vossa professora da conjugação.” No fundo, uma espécie de “vocês são parvas, mas eu sou muito mais.”
Disse ontem a duas das minhas turmas que, por muito que lhes custasse, quem manda dentro da sala de aula sou eu. Mas disse-o cá com uma calma, que os moços ficaram aparvalhados, esperando, quiçá, uma alteração no tom da voz ou algum esbracejar de irritação. Nada disso, que eu tenho modos.
Ouvia-se o silêncio e disse-lhes que era apenas o que queria ouvir dali por diante. Mas estava a brincar, também permito, sobretudo agora, com a chegada dos dias invernosos, que se ouça um espirro aqui ou ali, ou algum inesperado sorver de ranho. Está bem de ver que não lhes disse isto, não vão eles começar a fingir constipações e termos o caldo entornado.
Que sim, diziam os pequenos, abanando a cabeça, não se atrevendo a quebrar o silêncio exigido, por, seguramente, recearem, alguma medida tresloucada que pudesse tomar. Depois do breve discurso, começaram a trabalhar e, só para os martirizar, fizeram-no ao som de Vivaldi, que é para aprenderem a ter maneiras.
Armada aos cágados, que é coisa de que também padeço, perguntei, como quem lança um desafio impossível:
- Quem me disser quem é o compositor… - e não pude concluir. Felizmente. Até porque tinha em mente uma oferta choruda. Ora, quem me interrompeu foi o A., a quem vou dar a palavra:
- É Vivaldi, pressora, “As quatro estações” e esta é a da Primavera.
Eu cá não me fiquei e disse logo, com uma voz entre cínica e piedosa, mas mais para o cínica:
- Que pena, A., perdeste a oferta que te ia fazer… eu só perguntei o nome do compositor…


Quanto ao resto, há a registar que a escola anda numa roda-viva e só se fala de chouriças e de caixas. Mal entrei no bar, a Dª V., de dedo apontado na minha direcção, vociferou, vá,  disse até com alguma calma:
- A professora N. não andava a roubar caixas!
Perante uma afronta desta envergadura, não me fiquei e respondi-lhe logo:
- Boa tarde, D.ª V.  – oferecendo-lhe o meu melhor sorriso. Depois, acrescentei que só escrevi o que me disseram e que quem me disse ainda não negou que a professora N. andou no “gamanço” de caixas de cartão, para fazer sabe-se lá o quê.
Aliás, D.ª V., se me está a ler, ouça o que a professora N. disse na sala de professores a quem a quis ouvir, que não era o meu caso, mas fui obrigada a isso, já que estava muito próxima dela:
- Já viram isto, hoje de manhã, o Sr. D. revistou-me!
Ora, D.ª V., quando é que se revista alguém? Eu respondo-lhe: quando há fortes indícios de que essa pessoa ande a subtrair pertences alheios.
Ainda tem dúvidas? Pois eu cá não tenho e não posso, não quero, nem seria justo não felicitar o Sr. D. pelo zeloso trabalho, em prol dos bens que são de todos.


20 de outubro de 2015

DIA 24 - O MISTÉRIO DA CASA VIGIADA OU TERÁ A E.C. TEM ALGO A ESCONDER?


Os cacifos continuam a dar que falar e há pessoas que são invejosas. Já imagino a indisposição que esta afirmação está a causar, mas não sou de meias palavras e há que ser pegar o boi pelos cornos, esperando não bater com eles na parede. Há quem não possa ver um cacifo em condições. Começa logo “ai jesus, que eu também quero”. Aqueles que não disfarçam nada e que fazem grande alarido, são inofensivos: muito grito, muito grito, mas espremida a conversa, pouco sobra. O problema são os outros, que passam despercebidos. Afáveis, gostam de guardar uma certa distância, que nunca assumem, mas que muito prezam. É desses que vou falar, nomeadamente da colega E.C. e do seu ar simpático e cordial e do seu riso fácil. Pois se a E.C. é tudo isto, por que razão há-de ser tanta qualidade um problema?? Simples, caros leitores, é que atrás de tanta amabilidade esconde-se esse sentimento medonho que é o da inveja nunca assumida. E a colega E.C. padece desse mal, tanto que, quando menos se esperava, eis que nos espetou a todos uma facada, movendo o punhal em círculos e provocando, não sangue ou estrebuchamentos , mas a enigmática questão:
- De quem é este cacifo?! – questão de todos, com o sentimento de traição a bailar-nos no olhar.
Ninguém sabia.
Nada de novo, afinal nunca ninguém sabe nada nesta escola, quando se trata de cacifos.
Arregacei as mangas e pus-me à coca, que é como quem diz, perguntei à primeira alminha que passou a quem pertencia tão vigiada casa. Disse-me, “Ah, isso é lobby dos de Inglês”. Ora o que não falta são professores de Inglês, pelo que, insisti, mas de quem?? A alminha, cujo nome não refiro, por não me recordar, pedindo, desde já, perdão, a alminha, dizia eu, abriu a porta e verificou tratar-se da colega E.C. Eu cá, levei logo a mão ao peito com a admiração que me tomou e fui passando palavra, que eu cá não gosto de me admirar sozinha. A cada um que contava, era uma manita que ia ao peito. Pasmo geral, portanto.
É claro que começaram logo a surgir questões, que esta gente pensa muito:
- Para que quer a E.C. uma casa vigiada??
O J.M. fez logo uma associação entre este mistério e um caso antigo de um arquitecto, que fez não sei o quê com não sei quem, no seu escritório num sítio cheio de árvores, daquelas que dão amoras. A E.C. disse logo que não, que estava muito enganado, enquanto a vozinha lhe tremia e um sorrisinho lhe pairava no rosto, que entretanto corara. Como podem ver, a resposta é pouco convincente e ficámos assim com dois mistérios.

Quanto à inveja da colega E.C., posso dizer-vos, é mal que se pega. Agora ando aqui que não me aguento por não ter uma casa tão sofisticada quanto a dela.

19 de outubro de 2015

DIA 23 - CHOURIÇA E PEIXE FRESCO


Agora soa um zumzum lá pela escola de que fiquei com a chouriça e nem a partilhei com ninguém. Ah, povinho este, parece que anda tudo morto de fome! Pois que se fique a saber que a chouriça está intacta, em lugar seguro. E que não me venham pedir explicações, que a chouriça é minha e faço com ela o que eu quiser.

Segunda-feira, fim da primeira aula, senti que estava pronta para outro fim-de-semana. Não se pense que não gosto dos petizes, gosto, mas… como dizê-lo… há um quê de parvoíce generalizada entre eles, que me anda a dar umas certas agasturas.

A A., por uma qualquer razão desconhecida, não conseguia conter o riso. Achei por bem fixar estes belos olhos castanhos com que a Providência me presenteou na sua expressão divertida e perguntar:
- Posso saber o que se está a passar? – eu sirvo-me sempre da delicadeza, até porque poderia estar a dar-se alguma coisa que não me dissesse respeito e se há coisa de que não gosto é de me imiscuir em contas que não são do meu rosário.
- Nada pressora! – e, num ápice, deu um saltinho na cadeira, gesto muito falho de graciosidade, que a deixou direita que nem um fuso, desaparecendo do seu rosto qualquer sinal de felicidade.

À tarde, estava eu a tentar vender o meu peixe, fresquinho, está bem de ver, quando percebi que a parvoíce generalizada me estava molestar. Como já haviam sido feitos inúmeros esclarecimentos sobre as consequências que a parvoíce generalizada tem sobre mim, achei por bem passar à acção e pedir ao F.V. e à R. que saíssem da sala. Mas não se pense que houve alarido ou alguma animosidade, nada, apontei para ambos, que estava lado a lado, numa conversa que parecia ter um nível de interesse superior ao do meu peixe, e fiz-lhes sinal para que saíssem. O F. franziu o sobrolho e pareceu-me indignado, seguramente consigo próprio por não estar a aproveitar o pitéu que eu lhes estava a oferecer; já a R. teve a expressão de quem parece já estar habituada.

Ao toque, os moços saíram e, na pacatez da sala silenciosa, pensei nos meus pais e carga de porrada que me deveriam ter dado quando lhes comuniquei a decisão de querer ser professora.

16 de outubro de 2015

DIA 22 - A CHOURIÇA DA COLEGA N.

Entrei na sala de professores e reparei que algo estava pendurado no meu cacifo. Digo algo, porque a falta dos óculos não me permitiu identificar, de imediato, a chouriça que alguém, amavelmente, me havia deixado à porta.
Antes de tudo, quis logo agradecer convenientemente tão nobre oferta. Quem foi, quem não foi… cheguei à conclusão que aquilo só poderia ter sido uma bênção divina, já que nenhum colega assumia a autoria do generoso delito, garantindo-me não ter sido nenhum deles e assegurando-me desconhecer o culpado.
Imaginei logo o mais belo querubim, sensibilizado com a lágrima incessante do meu menino,  a descer, paulatinamente, das alturas e a pendurar, com a sua delicadeza angelical, a chouriça na porta do cacifo.
Duvidei da N., que andava a roubar caixas de cartão, e contei-lhe das minhas suspeitas. Nem pensar! Achas?, dizia-me com um sorriso de até posso ter sido eu mas nunca te vou dizer.

Eis que a L.C. me começa a fazer umas caretas estranhas, ia já a responder-lhe que não lhe admitia aquele tipo de comportamento, quem em nada a dignificava, quando, de uma forma mais clara, se afirmou conhecedora do autor do caso chouriça.
- Não me escondas nada - disse-lhe logo, satisfeita por, finalmente poder agradecer convenientemente a oferta. E ela dizia que não, que não me esconderia nada, que tinha sido a R.G.. Que tinha e certeza e tudo e, repentinamente, começou a falar do estado do tempo e da chuva que nunca mais vinha. Estava a disfarçar, porque deu entrada na sala a R.G. Dirigi-lhe a palavra, agradada, e pus um trejeitozinho de ironia:
- Obrigada, R.! E que bem que cheira a tua chouriça!
O barulho que a moça fez a dizer que não tinha sido ela! Jurava a pés juntos que nem pensar!
Ora, comecei a sondar a D.ª F., porque essa vê tudo. Aqui vai a reprodução possível da espécie de diálogo que mantivemos:
-  A professora, acha qué sê??
- Acho!
Ma nã sê!
- Vá lá, D.ª F., eu dou-lhe metade!
A D.ª F. ainda hesitou, a chouriça cheirava bem… mas nada. Não se descoseu.
Bem, aproveitei para pedir à N., que já tinha enchido o carro com as caixas roubadas, que passasse a ferro o napperon do meu cacifo, com o seu ferro de engomar, que trouxera propositadamente para o efeito, tarefa que cumpriu na perfeição e que aproveitei para fotografar, de chouriça pendurada no braço. Bem sei que se trata de uma medida ligeiramente radical, mas tive de a tomar, pois já havia muita cobiça naquela sala.
Pensarão que desconheço o benfeitor da chouriça. Enganam-se.
À saída da escola, já fora de portas, junto ao carro, fui abordada por alguém, cujo nome jamais revelarei, que me contou tudo, não sem antes me fazer jurar a pés juntos que aquela informação ficaria apenas entre nós.

Jurei o que tinha a jurar e, graças a isso, apresento aqui a minha gratidão à colega N., pedindo-lhe que traga o pãozinho e a vinhaça, para que eu possa fazer um pequeno lanche com a minha colega de cacifo.


15 de outubro de 2015

DIA 21 - ESTRELATO E VIGILÂNCIA, COM VÉNIAS À MISTURA


Percorrer o corredor é uma aventura para lá de desafiante. Tem até o seu quê suicida. Vai daí, decidi transformar essa experiência diária no meu momento de glória: não há alunos, nem corredor. Há admiradores que gritam e que se atropelam para me ver passar. Há nos seus rostos, bem sei, um desejo que quase roça a invejazinha, de quererem ser como eu. No chão, os que desmaiam de emoção. Contorno-os, cumprimento, e sigo em frente, com aquela expressão seráfica que só as grandes estrelas sabem ter. Percorro o imenso corredor, enquanto, estarrecida, ouço o clamor de quem, no seu anonimato, anseia pelo meu brilho.
Incontáveis “Olá Pressora”,  depois é o esticar de braços para um cumprimento , são os toques no ombro, a insistir numa proximidade tão ansiada, quanto impossível.”Professora?” - tenho-me perguntado, depois percebi, este tem sido o meu papel nos anos mais recentes.
- Ah, a confusão do público, que não distingue quem sou da personagem que represento!
Depois desta experiência, o momento da aula é de ansiedade, que apenas termina com o toque de saída, para poder novamente desfilar na passadeira vermelha da minha loucura. Que é grande.
Durante a aula da manhã, ainda com o cérebro em “stand-by”, a determinada altura, ouvi um comentário: “Adoro estas aulas”. Discretamente, olhei para o colega L., que tão bem me coadjuva, pensando vir dele tal expressão de apreço, mas não, ele estava ao fundo da sala, de joelho no chão a ajudar um petiz, foi quando me apercebi que tinha sido a T.. Percebi, naquele momento, que os milagres existem.
De volta à sala de professores, reparei num vulto indistinto (não tinha os óculos e havia em mim a desconfiança de que os tinha perdido), esse vulto, dizia eu, estava numa pose de “vou pôr-me aqui atrás deste poste para ninguém me ver”, esconderijo pouco feliz, pois até eu, que não vejo um palmo, me consegui aperceber da sua presença. À medida que me aproximava, descobri que era a P.G.(vénia), em busca dos infractores. Ficou atrapalhadíssima quando me viu. Não que mo dissesse, ou que se percebesse, mas acho que essa é a reacção certa quando se está na presença de uma estrela de cinema. Espreitava a T., disse-me, que já se tinha metido em sarilhos, sim, a T., que no outro dia escolheu ir à Direcção, em vez de ficar na aula de Português, que tanto adora.
Esta situação fez-me lembrar outra: no ano lectivo passado, tive um jovem aluno que me disse: “Oh pressora, eu sei onde ‘tão as camaras todas! Todas, pressora! A única coisa que não sei é de onde é que o Prof. F.N. e a Prof. P.G. me podem aparecer."
Fica a sugestão: esqueçamos as câmaras de vigilância, que estes professores e a D.ª F., com os seus 6 olhinhos, são muito mais eficazes!
À saída, a D.ª F., mal me viu no patamar das escadas, começou com uns salamaleques estranhos, de rabo p’ró ar, como quem faz uma vénia desengonçada e vá de se desculpar, por não ter posto um gosto na crónica de ontem,  gesto que muito apreciei. Agora só já falta a D.ª C. seguir-lhe os passos,  tal como a D. a S.G..
Espero não me estar a esquecer de ninguém, que eu cá não gosto de andar a melindrar as pessoas.


14 de outubro de 2015

DIA 20 - AS BOLAS DO F., O DESPEJO E AS DESCULPAS QUE ME DEVEM


Como é do conhecimento geral, sou uma pessoa recatada. Calcularão, então, como é difícil para mim, vir aqui tratar dos problemas que a colega D. me arranja. O que foi hoje? O comentário que fez à crónica de ontem, no qual, injustamente, como começa a ser seu hábito, refere que é já uma constante ter de arrumar o meu material perdido, uma vez que, ao tentar fazer um “listening” (vejam bem o que ela faz nas aulas!!) encontrou um CD de Português de 7º ano e vá de alarido!
Ora importa que a D. esclareça o número de vezes que lhe pedi que arrumasse o meu material. Nunca tal aconteceu! E se minto, que o céu me caia em cima da cabeça! Logo aqui, a colega D. deve-me o pedido de desculpas que acha que eu lhe devo. Quanto ao CD, o que a D. não sabe é que há já dois dias que consigo trazer para casa, tudo quanto daqui levo e eu não levei nenhum CD para a escola. Sei a quem pertence. É da S. G., que nunca perde nada, e que agora terá de se explicar, pois à conta de sua distracção, vejo-me enredada nesta tão lamentável situação.
Posto isto, vamos a contas: a D. deve-me, não um, mas três pedidos de desculpas, quem quiser saber qual é o terceiro, que leia o dia 16 e a S.G. deve-me um, que vai somar ao da Dª C., embora eu já não saiba porquê e ao da D.ª F., que me deve outro, pois nem um gosto pôs na crónica de ontem, onde foi referida.
A D.ª S., essa anda uma simpatia. Fui lá para fazer umas copiazitas, mostrou alguma contrariedade, ao que eu lhe disse logo: “Olhe que eu apago tudo o que disse sobre si!”. A partir daí tem sido um regalo. E se até ontem parecia ter dez braços, agora multiplicaram-se!
Hoje houve ordem de despejo. Há quem tenha um cacifo partilhado, com cão de guarda e tudo e mais uma arrecadação. Não está certo e toca de despejar a tralha toda num cacifo, cujo dono se desconhece. Eu cá sei isto tudo, porque vi a L.C. e outra pessoa (que não digo quem é, porque não me convém) a fazerem as mudanças. Talvez eu tenha tido uma pequena participaçãozita. Mas quase nada.
Aula da tarde, no auge de uma explicação, gotas de suor a lavarem-me o rosto, sublimando o momento:
- Reparem que, na primeira frase, a palavras “bolas” é uma interjeição, já na segunda…
- Mas, “pressora”, as bolas da primeira frase… - diz o F., que interrompo, por me ter interrompido, e com assinalável eloquência, justifico-me:
- Espera só um bocadinho, F., que eu já vou lá à tuas bolas...

Só houve uma reacção. A do F., que me pediu desculpas pela interrupção.

13 de outubro de 2015

A DIRECÇÃO, A D.ª F. E OUTRAS HISTÓRIAS

Ao entrar, lá tentei pôr ordem nos moços, que continuam a não saber qual o lugar em que se devem sentar. Entretanto, tirei as folhas da pasta e a M., com ar aflitíssimo, informou-me que ia com a T. a um lugar que não cheguei a saber qual era…
- Era o que faltava! – disse logo eu, com uma autoridade que paralisou a M. e só lhe permitiu um breve justificação:
- Ela tá “même” muito mal, “pressora”!
Desviei o olhar para a T., que se contorcia. Mantive a calma, e agi em conformidade:
- T., tu não podes estar aqui nessas condições!- constatei, alterada pela sua expressão de dor.
- “Pressora”, eu vou com ela, insistia a M.
- Só se te contorceres também.
A M. respondeu que estava bem e sentou-se.
A T. explicou-me o que se estava a passar, chamei a senhora funcionária, que a levou.
Comecei a aula. E ia já embalada, a senhora funcionária bateu à porta, a pedir que a C. saísse, pois a mãe estava à espera. Parece que tinha uma consulta.
Continuei a aula, e estava a começar a embalar, quando entrou a T., combalida, mas bastante melhor. Sentou-se e, digo eu, que já a vou conhecendo, devia estar mesmo mal. Não refilou uma única vez.
Tento o arranque, o motor começa a dar sinais de aceleração, palavras compostas e palavras derivadas e estão todos a perceber? E apareceu a senhora funcionária. Vinha buscar a T. para ir à direcção. A turma emudeceu, houve uns olhares cúmplices e preocupados e eu, que nunca sei de nada, tentei a minha sorte, de forma, digamos…parva.
- Passa-se alguma coisa? – era evidente que se estavam a passar coisas, por que raio não perguntei logo o que era. É óbvio que a resposta foi negativa, que não, que estava tudo bem. Tenho de ir eu também falar com a Direcção, que isto de me mandarem vir buscar os alunos à sala não está certo. Tenho 30, é verdade, mas são meus!
Prossegui e, quando tento arrancar para novo embalo, tocou para saída.
Assim como quem não quer a coisa, perguntei à M. o que é que a T. tinha feito. E tive uma resposta pouco esclarecedora:
- Não sei por qual das cenas é que a chamaram, “pressora”.
Ao fim da tarde, vinha a descer as escadas, a pensar, seriamente, que rumo profissional dar à minha vida, vi a D.ª F., com aquela expressão de “olha a professora Antónia onde ela vem”, e meti conversa. Não tive muita sorte. É que a D.ªF. estava no seu posto, que é como quem diz, a controlar, para actuar de imediato. Eu diria até que esta senhora é melhor do que qualquer câmara de vigilância.
Não me pôde dar conversa, com muita pena minha, que estava disposta a isso. Apareceu um rapazote, todo encolhido e num berreiro. A D.ª F. quis logo saber o que se passava. Parece que havia outro que o estava a ameaçar de porrada. É claro que a D.ª F. quis saber quem era. O outro moço, tive oportunidade de o ver, era baixo e franzino, mas um homem não se mede aos palmos e este pequeno tinha tanta raiva, que, pareceu-me, estava até capaz de bater na D.ª F. Ela é que não esteve pelos ajustes e, de mãos na cintura, enfrentou o pequeno irritado com um “Queres bater-lhe prequé?”
Ele lá disse, mas articulava muito mal e não consegui perceber o motivo da discórdia. Não sei se a D.ª F. conseguiu, mas acredito que sim. Ela leva sempre a água ao seu moinho.


12 de outubro de 2015

Dia 18 – SEM TÍTULO OU PONHA-LHE O QUE QUISER


A D.ª S. é um desembaraço! Consegue a proeza de falar com três pessoas ao mesmo tempo e quem se baralhou fui eu, que nem sabia ao certo que pergunta lhe fizera.
Como precisei lá voltar, chamei-a pelo diminutivo.
- Ai, quando aqui me chegam com o –inha… - comentava a Dª S., no seu habitual jeito, enquanto que, com cada um dos seus braços, (deve ter p’aí uns 10) punha folhas, tirava folhas, agrafava folhas, cortava folhas, dobrava folhas, copiava folhas… - de que é que precisa, professora ( a D.ª S. articula, que é uma beleza) ?
Nem me lembrava já do que queria, mas claro que a D.ª S. adivinhou (é outro dos poderes que tem) e resolveu ali o assunto.
Já na aula, o L. e o H. estavam um pouco agitados, pedi-lhes as cadernetas e acalmaram. Acho que recearam que lhas estragasse.
Após o toque, preparadíssima para sair, o A. decidiu falar sobre cinema. Quase que lhe bati, em vez disso, mostrei todo o interesse. Cão de Guerra foi o filme escolhido.
- Pressora não veja, olhe que vai chorar.
Mas se o A. não quer que eu veja o filme, por que raio me há-de estar a aconselhar um filme que acha que eu não devo ver?
E vá de contar o enredo… Alto e pára o baile, que não quero saber o fim, disse-lhe, já com um pé fora da sala, ameaçando-o com um olhar assustador, que não sei como é que o A. interpretou, já que me respondeu com um rasgado sorriso.
Sem intervalo, corri para a reunião. Pelo caminho, tive uma sugestão: pôr uma tiara, ou umas fitas no cacifo. Vindo de instância superior, é uma ordem, que brevemente será cumprida.
Acho que seria uma ideia para lá de maravilhosa fazer um concurso de decoração de cacifos. Mas uma coisa a sério, por categorias e tudo, com júri para avaliar: o mais criativo, o mais harmonioso, o mais asseado… e depois com agradecimentos dos vencedores, tipo Oscar.
Ah, as ideias maravilhosas que me assomam…


9 de outubro de 2015

Dia 17 - D. QUIXOTE, REBUÇADOS E UM CÃO

O meu nome é Mancha. Antónia Mancha. Da linhagem do engenhoso cavaleiro Quixote, pelos vistos...
-Quixote de La Mancha?!, exclamou o P., na aula de Espanhol… e vá de accionar o pensamento e vá de fazer associações e chegar a conclusões, que partilhou entusiasticamente, ouçamo-lo no seu delírio:
- A pressora de Português também é Mancha!
- Sim, P., ela ainda é parente, já muito afastada, mas ainda é da família.
- Mas a pressora é só Mancha.Não tem o La.
- Isso é porque, com a evolução da língua, o La já caiu…
A voz que responde ao P. é a da colega T., a quem agradeço ter-me criado tão distinta ascendência.

Ontem tive uma ideia inspirada e hoje, entusiasmada, pu-la em prática:
- A resposta a esta questão merece um rebuçado! – convicta de que os moços se sentiriam ainda mais motivados para o estudo do Português .
Orgulhosa da estratégia que acabava de implementar, fiz a pergunta e era ver o frenesim de braços no ar.
- N., diz lá, então, qual é o feminino de ateu, concentra-te, e luta para ganhares!
- Os rebuçados são de quê, pressora?
Surgiram-me tantas coisas que poderia fazer àquela criança, mas optei apenas por, sem conseguir disfarçar a irritação, lhe dizer que queria uma resposta e não uma pergunta.

O W. anda cabisbaixo. Nota-se-lhe no olhar que a vida não lhe corre de feição. Hoje, após uma explicação, perguntei:
- Ficou claro? Perceberam mesmo??
Que sim, que estava tudo como preto no branco, que não havia dúvidas. O W., agastado com o que lhe pareceu ser impostura dos seus colegas, atirou, com o desprezo que os impostores merecem:
- Isso é o que vocês dizem. Aqui à frente da pressora todos sabem tudo.
E depois, num derrotismo pungente, três semanas após o início das aulas, o W. perguntou-me, como quem já aceitou a resposta como sina:
- Eu vou ter 2 a Português este período, não vou, pressora?
Accionei o dispositivo da psicologia educacional e lá lhe fui dizendo que não, que era muito cedo, que ainda nem tinha elementos de avaliação concretos. Depois não resisti e lá pus a adversativa, seguida de um que se pusesse a pau.

O menino da lágrima é que anda num pranto, as vizinhas de baixo agora têm um cão, o Raul. Um encanto de animal, mas um incómodo para o meu menino, que diz não dormir nada durante a noite com o ladrar do canídeo madrugada fora. Durante o dia, é uma correria pegada. Toda a gente a querer ver o Raul.
Não me admira nada que ponham o bicho a render.

8 de outubro de 2015

Dia 16 - Equívocos, cães, frades, freiras e retretes



“Bom dia! Cara colega, li com particular atenção esta crónica. Esperei encontrar, algures, um agradecimento à minha pessoa pelo facto de não ter fugido com o seu carro, os seus óculos e aquele objecto electrónico... resisti a todas as tentações - sobretudo à de ter um carro substituo, visto que o meu está nas lonas... e NADA!! Digo-lhe o que a D. C não disse, mas pensou: a Colega não tem mesmo nada que fazer! E, como se isso não bastasse, é uma Ingrata! Cumprimentos
Colega D. in Facebook

Bom, nesta linha dramática, que eu cá sou uma pessoa dada ao drama,  devo dizer à colega D. que é mágoa pura o que me embacia o olhar (também a falta dos óculos. Mas mais mágoa)! É com esta dor lancinante que peço à colega D. que me peça desculpas. Desde logo, porque teve de resistir à tentação de me roubar o carro, ora se resistiu, quer dizer que esse pensamento lhe ocorreu; depois, pela forma precipitada como me ajuizou, uma vez que, a sr.ª funcionária do corredor não me disse quem havia encontrado o avolumado acervo que me pertencia.
- Ah, não acredito!, dirá, agastada, a D. - então ela é que é a culpada!!
Confrontada com a ira da D. , a sr.ª funcionária defender-se-á :
- Mas a professora Antónia não perguntou quem é que tinha encontrado… vinha desorientada, pegou nas coisas e agradeceu-me!
Posto isto, colega D., peço-lhe que me peça desculpas e que as apresente também à sr.ª funcionária do corredor, que também se deverá desculpar perante mim, pois eu até ia desorientada, só que há coisas que não se devem dizer aqui no Facebook, não vão as pessoas, acertadamente, pensar que eu ia desorientada.
Parece que a D. sabe, de fonte segura, que a D.ª C. pensa mesmo que eu não tenho nada que fazer. E eu acredito, porque a D. não iria fazer uma afirmação destas de forma leviana, nesse caso, há mais uma pessoa que tem de me pedir desculpas. D.ª C., cá as aguardo!
Desapareceu o cão da N., o Raul. Parece que estava no porta-bagagens. A camisola que perdera há um ano atrás também já apareceu, diz que a colega D. a encontrou e que a tem andado a vestir. Garante não saber a quem pertencia, mas verdade é que nunca a usou perto da N. 
Retirem as vossas ilações, que eu cá já tirei as minhas.
Continuo sem saber quem me ofereceu o napperon, fosse lá quem fosse, tem um gosto mais apurado do que as vizinhas do apartamento de baixo, a N. e a D., que agora também têm um, ou melhor, uma coisa redonda com brilhantes, comprada em alguma antiga loja dos 300. Confrontadas com esta evidência defenderam-se, dizendo que eu a D.G. somos uma dupla sertaneja, enquanto elas um duo de jazz.
Na aula, a B. perguntou 
- O que é que é um frade? 
O H., que tinha feito o TPC, mostrou que sabia do que falava:
- É uma espécie de freira.
 Mantive a seriedade e perguntei ao H. como é que ele tinha chegado àquela conclusão.
- Foi a minha mãe que me disse!
Perante isto, apenas me ocorreu acrescentar: 
- Sim, H., é uma espécie de freira, só que em homem.
A aula prosseguiu, e estando eu no clímax da interpretação textual, coloco uma questão, três braços no ar, o G. com o braço no ar, toda a minha pedagogia em movimento, já que o G. é um moço pouco participativo, entusiasmada, dou-lhe a palavra e o G. derruba-me com uma pergunta:
- Posso ir à casa de banho?
Acabou, assim, na retrete, toda a minha excitação intelectual.


7 de outubro de 2015

Dia 15 - A D.ª C. ou hoje não falo de cacifos

Marco Santos, Com a Cabeça nas Nuvens
Imagem aqui

Lá vai ela escrever mais uma crónica. A frase é da D.ª C., que me sorria, enquanto acompanhava a minha destreza a descer os degraus. Hoje não foi um dia produtivo… não sei o que escrever., respondi, e de facto, não sei.
De manhã, perdi a bolsa dos lápis, o que me aconteceu também há cerca de uma semana atrás (vide dia 10). Desta vez, veio um aluno no meu encalço que, entre o tímido e o vitorioso, bradou um irritante: A professora esqueceu-se do estojo.
A seguir ao almoço, terminada a segunda aula do round vespertino, dei pela falta dos óculos Oh diabo, exclamei de mim para mim. Como não quis incomodar a colega, decidi esperar pelo toque de saída. Sendo uma pessoa confiante, pelo sim, pelo não, fui à primeira sala onde estivera. Ou melhor, não fui… Professora, não perdeu nada? Era a senhora funcionária do corredor, com uma expressão indefinível: havia nela competência, responsabilidade, um quê de divertimento e pasmo. Muito pasmo. Perdi os óculos – respondi, na secreta esperança de não ouvir : E não perdeu mais nada??  Mas sim, ouvi! Esbofeteei-me até mais não, enquanto respondia: Conte-me tudo…  e aí, sim, foi a vergonha, a senhora abriu a gaveta e começa a tirar os óculos, uma caneta, como lhe chamou, e a chave do meu carro.
Estive quase para me mostrar indignada e perguntar-lhe o que estava ela a fazer com a chave do meu carro guardada na sua gaveta. Mas achei por bem calar-me. E agradecer.
Dos 45 minutos que tinha para descansar, restavam-me 20. Fui para a sala de professores e decidi começar a corrigir uns trabalhos. Mas… ai, onde pára a minha capa?? Lembrei-me da colega E. R., que me fora render e da atrapalhação que isso me causou (vide dia 8). Lá desci as escadas uma vez mais e aguardei pelo toque. Era ver os moços a sair e cada um deles a dar-me o golpe fatal: Deixou aqui as suas coisas, pressora. Felizmente, a turma só tem 20.
Voltando à Dª. C. o que quereria ela dizer com aquele comentário do ah e tal, vai escrever mais uma crónica? Estaria a insinuar que quem não tem nada para fazer escreve crónicas?? Que eu não tenho nada para fazer? Que não me dedico à escola? Que não preparo aulas?? Vou tirar isto a limpo e conto-vos já como vai acabar: amanhã, a Dª C. tentará justificar-se perante a minha expressão inflexível. Não gostei, Dª C., não gostei, dir-lhe-ei, pelo menos três vezes. Será vê-la atrapalhada e já com o seu quê de irritação.
 Depois disso, e só depois, é que lhe vou dizer que estava a brincar.

6 de outubro de 2015

Dia 14 - Nomes, frades, viúvas e mistério


O D. não era portador do material necessário para aula, havia que tomar providências e não hesitei. Ainda não sei ao certo quantos D. tenho ao todo. É um nome bíblico e corriqueiro. (Que escolha de adjectivos! Que deus me perdoe.) 
Como dizia, há D. nas minhas turmas até perder de vista, e se a competência está em mim, a justiça é outro dos ingredientes que enforma esta professora que vos fala. Quis logo assegurar-me de que não ia marcar uma falta de material a um D. que, muito acertadamente, trouxera tudo o que era necessário. Então, perspicazmente, perguntei, e prestem todos atenção:
- D., diz lá como é que te chamas - enquanto, de caderno em punho e lápis em riste me aprontava para apontar o delito do jovem incumpridor. 
A turma gargalhou entredentes, ao que, ignorando a triste figura que estava a fazer, a questionei:
- Estão a gargalhar entredentes porquê?
E um jovem, com ar bem disposto, de dedo no ar, tentou explicar-me, mas cortei-lhe ali o pio, que eu cá não gosto de explicações bem dispostas.
A tarde também foi proveitosa, e perguntou o A.P.:
- Oh pressora, o que é que é um frade?
Fui atropelada pelo A., que se apressou a esclarecer:
- É frada!
Sim, bem sei que a resposta nada tem a ver com a pergunta, mas o A. nem se apercebeu e vai daí, a C., mais atenta, elucidou-nos a todos:
- Não, parvo, é aquelas mulheres que ficam sem marido.
A minha expressão parada mexeu com a C., que com um sorriso rasgado, mas com o seu quê de timidez, me disse:
- Não é, pois não, pressora?
Não é, não, C.,respondi, enquanto tentava perceber a associação que ela fizera para chegar a uma resposta tão brilhante. Não consegui.

O mistério anda à solta na sala de professores. E mais não digo.
Por hoje.


5 de outubro de 2015

Dia 13 - A falta de uma pessoa


Faltei, por um motivo, cujo enquadramento legal é insuspeito, mesmo assim, ao fim do dia fui à escola para uma reunião. 
Mal entro, um pequeno grupo de alunos chama-me. Aproximo-me, a medo, sempre a medo.
- A pressora faltou 
(Desculpem-me a ausência de pontuação, mas não sei que ponto ali hei-de colocar.)
Respondi com um sim impaciente e subi as escadas, enleada em pensamentos desordenados.
Mas o que pretendiam eles? 
Aquilo era uma pergunta? Se sim, era parva:
- Sim, faltei, acaso não deram conta de que não tiveram aula?
Se era uma afirmação, como quem dá uma informação, era parva:
- Sim, eu sei que faltei.
Se era um exclamativo brado de dor pela minha ausência, era bonito:
- Não se preocupem, que irei repor a aula. (Já imagino o júbilo dos pequenos)
Numa ínfima possibilidade, veio-me à ideia de que poderia ser  uma manifestação de incontrolável contentamento pela minha ausência, hipótese que afastei de imediato, já que a resposta que me surgiu não a poderia jamais escrever aqui.

Ficará, para sempre, a dúvida. 

2 de outubro de 2015

Dia 12 - O menino da lágrima


Há um burburinho indisfarçável em torno do meu cacifo e do seu napperon: muito comentariozinho, muito olhar de soslaio. Muita inveja, sei-o bem.
Assim que viram o naperão, "ai que lindo", "ui, é vintage", " mas que bem" e vá de sugerir, que estas pessoas, quando é para sugerir, chegam-se logo à frente. O J.G. até me prometeu trazer um cão de loiça, já a I.C., finíssima, insiste que um rolo de papel higiénico todo forrado a crochet é que faz falta, e no meio desta conversa sem fim, surge a ideia d' O menino da lágrima, essa grande obra, pendurada em todas as paredes de qualquer lar bem português. 
Até me arrepiei, e foi arrepiada que pus mãos à obra. Gostaram todos muito do resultado final, mas não sei se por maravilhamento, ou escassez de vocabulário, as reacções foram as mesmas, portanto escuso de me repetir.
Só ao fim da tarde, tive, finalmente, um  feedback digno de registo, veio do J.M., a quem dou a palavra:
- Antónia, aquele cacifo é o requinte do mau gosto.
Percebi, de imediato, que estava no caminho certo.

1 de outubro de 2015

Dia 11 - Cacifos, napperons e fezes


- Olha lá,- e eu olhei -  já foste ao teu cacifo?- e eu fui- – perguntou-me, se a memória não me falha, a N.
Imagine-se que alguém foi ao seu enxoval e de lá retirou o mais bonito napperon, num inenarrável gesto de bom gosto e desprendimento, embora, por um descuido imperdoável, não o tenha passado a ferro, invalidando, assim, tudo o que aqui se disse a propósito do gesto que teve. Além disso, quis parecer-me, que um leve odor a naftalina começou a pairar em toda a sala de professores.
É quadrado, o napperon, de linho, com uma delicada renda à volta, cujo ponto hei-de tirar para levar à minha mãe querida, que muito me agradecerá, pois poderá mostrá-lo, como troféu, a todas as vizinhas que, como ela, fazem ao desafio, pontinhos nas bordas dos panos de cozinha.
 Começa a ter ares de lar, o meu cacifo. Digo o meu, porque ainda não perdi a esperança de a D., não aguentando tamanho bom gosto, decida desocupá-lo. Isso, sim, seria uma verdadeira atitude filantrópica, mas desconfio que a D. não pensa como eu, o que lamento.
As conversas começam a ter um nível cada vez mais elevado, facto que muito me apraz. À roda da mesa, numa saudável terapia cultural, entre um folhado e um limpar de beiços, discutiam-se peculiaridades linguísticas: “A minha filha só me dá é fezes”. A frase foi proferida por uma colega nova na escola, a quem peço desculpas por ainda não saber o nome. Mas isso é irrelevante, pois não é dela tão distinto discurso, antes de uma senhora que o dirigiu à prima de um amigo do irmão da colega de quarto da colega nova.
Mas a colega nova reproduziu uma coisa dessas enquanto comiam? Que falta de educação!, pensarão. Pontos nos ii, que a colega nova tem maneiras e muito berço. Vem do Alentejo, esse outro mundo, que é a minha terra também, e onde uma filha dar fezes à mãe está muito longe dessa imagem escatológica que a vossa imaginação já vos criou.  Tal como em - Ai, vizinha, tantas fezes! não encontramos o espanto de duas mulheres a olharem e a verem excrementos até ao horizonte. Ou em, Ai, mana, que fezes tã grandes, que fezes tã grandes! não está o espanto de uma anciã ante a dimensão da sua matéria fecal.
 Apressem-se a apresentar  as vossas desculpas à senhora que tinha uma filha que só lhe dava preocupações, à vizinha que também as tinha e à anciã que tantos desgostos a vida lhe dá.

Quanto ao napperon, agradeço-o, uma vez mais, pedindo a quem teve tão singular gesto que se identifique, e que traga um ferro para dar conta dos vincos marcados pelo tempo. Que não me deixe nestas fezes, portanto.

Nota: confirme aqui a  definição do Dicionário Priberam Alentejano.